
Hoje, caminhando pela rua, absorto em pensamentos nostálgicos, escutei uma voz extremamente familiar me chamando. Olhei por sobre meu ombro, e vi um guri de calças curtas, descalço, com um sorriso inocente e lindo estampado no rosto.
Imediatamente reconheci o moleque que me chamava. Não era outro que senão eu mesmo. Sim, eu criança, lá do passado, chamava o homem de hoje. Sem hesitar, meu “eu criança” perguntou: “O que você fez de bom nesses anos todos?”
Aparentemente uma pergunta fácil, mas será que fiz algo que realmente tenha valido à pena?
Então enumerei alguns fatos. Fui um bom filho, nunca incomodei meus pais, sempre fui bem na escola, fiz uma faculdade aprovada por eles. Fiz muitos amigos, tive namoradas, me casei com uma delas.
Fui um bom marido até hoje, penso eu. Nunca brigamos, nem nunca dei motivos para magoá-la. Ou será que dei?
Notei uma expressão de desapontamento no rosto infantil que mirava-me esperançoso por mais coisas boas. Pensei comigo: “mas parece que foi ontem”. E o menino, como a ler meus pensamentos, de pronto respondeu: “mas não foi ontem, muito tempo se passou. O que você fez de bom em todo esse tempo?”.
Será que fui mesmo um bom filho? Será que estive junto de meus pais quando precisaram? Trouxe uma palavra de conforto naquele momento em que a situação era difícil, ou simplesmente reclamei por que não ganhei aquele presente caro? E meus amigos? Será que dei meu ombro para eles chorarem quando tanto precisaram, ou fui só eu que busquei um confidente, um conselheiro que só me disse o que eu queria ouvir?
Minha esposa. Essa eu tenho certeza que sempre estive junto dela, passamos por tantos momentos difíceis, construímos tanta coisa juntos. Mas será que ela é uma pessoa realizada? Ou viveu esses anos todos à minha sombra, tentando ser perfeita para mim, enquanto eu buscava perfeição em outras?
Percebi que havia tanto a ser feito. Agradeci por ainda estar vivo, com saúde, para poder consertar meus erros. Fazer todas as coisas boas que aquele menino lá atrás no passado sonhou, e que o homem esqueceu. Olhei para aquela rua a minha frente e vi portas que eu deveria adentrar para dar um “olá“. Vi pessoas sentadas no chão que eu precisava ajudar. Vi pessoas conhecidas que ansiavam por meu “bom dia”. Coisas que não fiz naquele trecho de rua do meu passado. Por estar ocupado demais, por não precisar, ou simplesmente por não querer.
Olhei para o lado e vi uma mão estendida, procurando a minha. Segurei aquela mão e busquei os olhos da minha companheira. Minha esposa bondosa, como sempre, dava-me uma nova chance, para seguirmos juntos, não como meros amigos morando sob o mesmo teto, mas como companheiros, para todos os momentos, cúmplices amantes.
Nesse momento, olhei em frente, e vi que uma pessoa mais velha, caminhava devagar pela mesma rua que nós. O senhor parou, como se tivesse ouvido um chamado, e virou para trás, fitando meu rosto. Sua face enrugada, castigada pelo tempo, era muito familiar também.
Sim, aquele idoso era eu. Naquele momento em que pensei em fazer um novo futuro, foi minha vez de chamar o meu “eu mais velho“. E perguntei, ansioso pela resposta:”O que você fez de bom?”
O velho sorriu, e respondeu:”Não sei, isso só depende de você”.
Percebi assim, que o futuro é hoje, e que nós o fazemos. Não podemos passar a vida esperando ela passar por nós. Nós devemos é passar pela vida dos nossos entes queridos, ajudando essa vida a ser mais feliz, mais plena. Se existirmos nesse mundo como alguém que fez a vida dos outros a sua volta mais feliz, então nossa existência terá sido boa, terá valido à pena.
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