quinta-feira, 10 de maio de 2012
A última arte
Já não eram mais válidas as tentativas de burlar os caminhos rotineiramente traçados. A ilusão de ser livre havia se desfeito lenta e gradativamente, mas era visível, embora tentar enganar-se fosse parte de sua estratégia de sobrevivência.
Olhando de sua varanda os transeuntes apressados a passar nas ruas, via-os como estrelas solitárias. Reis do seu umbigo, senhores de um feudo imaginário com meio metro de diâmetro.
Outrora pensara estar livre dessa jaula confortável. Afinal a arte transporia qualquer muro.
Porém havia virado escravo do que mais temia, um funcionário perfeito a serviço de sua própria fábrica. Arte produzida em massa, linha de montagem. Tão fria e vazia quanto o copo que segurava nas mãos trêmulas.
Precisava colocar-se acima disso tudo.
Num gesto mal pensado, lançou-se aos céus, esperando uma última redenção.
Cravou o corpo no asfalto, e ali enfim, compôs sua última arte libertária tão desejada.
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